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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Causas e efeitos da Mistica (ou falta dela)

O futebol é o mais feminino dos temas assexuados.

É certo e sabido que, no que toca ao futebol, a isenção é uma quimera só comparável à de transformar um político num animal honesto, sobretudo quando toca à rivalidade comparativa da grandeza dos clubes. Neste particular a verdade é volúvel, mudando de padrão na perspectiva das lentes com as quais se enxergam os factos, numa cegueira generalizada que radica dos fundilhos da alma, onde a razão é mais fina e por isso, mais vulnerável ao desgaste da paixão. 

Por mais "isentos" que sejamos e por mais redutora que seja a nossa clubite superlativa, nada obsta a que se use do bom senso quando nos prestamos a verberar sobre virtudes e defeitos dos nossos mais que tudo (É verdade mulheres, por mais que vos doa, o clube é a ultima coisa que trocaremos num momento de crise sentimental). 

Consideremos o FC Porto e o SL Benfica, as duas e únicas  - Mesmo! Por mais que outros penetras peçam meças a essa condição -  superpotências internas no que toca ao futebol. Época após época, no intervalo dos jogos, vai-se entretendo o andor nos painéis de sábios, opinadores e demais paineleiros, que se multiplicam pelos diversos órgãos de  difusão da palavra, como fungos em ramo verde, dissertando sobre poderes hegemónicos por entre teorias mais ou menos conspiratórias ou simplesmente alegóricas para mostrar que a sua virtude é maior do que a do vizinho. E é aqui que a porca torce o rabo. Como meninos crescidos, todos devíamos saber que quantidade não é necessariamente qualidade. De que vale ter o proveito sem aproveitar a fama?...
João Pinto

No que toca a números, é por demais evidente a supremacia do Porto nos últimos trinta anos, relativamente ao Benfica, como também não deixa de ser verdade que até essa fronteira temporal foi dos encarnados essa supremacia. 

Debruçemo-nos pois sobre as razões que conduziram à troca de testemunhos na posição charneira do futebol português. Mais do que questiúnculas de secretaria, de lobbys ou de fruta fresca ("sei que não vou por aí"...) as evidências confirmam que existe um pormenor que vai fazendo a diferença quando se trata de enunciar a força motriz que conduz à vitória. A mística é a identidade de um clube, radicada no espirito de grupo, na ambição e no carácter. 

A mística não nasce das árvores nem se compra nos bancos ou nos investidores, não nasce de geração expontãnea nem se importa da América do Sul. Nasce das memórias e dos exemplos transmitidos de dentro para fora no confronto natural de gerações que se substituem na condição de transmissores dos valores. 
Vítor Paneira

Até final dos anos 80, os planteis de FC Porto e SL Benfica eram eminentemente compostos por jogadores portugueses que se perpetuavam no clube como faces visíveis do "ser portista" ou do "ser benfiquista", comandados por direcções competentes e conhecedoras das sensibilidades próprias do meio ambiente futebolístico. A década seguinte porem marcou uma viragem profunda neste cenário de equilíbrio de valores. A par com a liberalização do mercado e a consequente sociedade das nações em que transformou o jogo, o Benfica  mergulhou no degredo profundo para o qual foi conduzido pós João Santos, por sucessivas direcções descabeladas e incompetentes ou à mercê de chicos espertos de ocasião que transformaram o clube numa agremiação descaracterizada e à deriva. Foram-se os dedos e os aneis. Os planteis perderam os exemplos internos e a mistica transformou-se numa mera alusão temporal.

Se na ultima década o clube voltou a navegar em águas tranquilas e a bater-se por essa hegemonia, não deixa de ser verdade que a mística vencedora não passa ainda de uma esperança encarnada, com muito para andar até se sedimentar na própria história do clube. Mas para arrepiar caminho importa não alimentar a saciedade com desculpas redutoras como arbitragens e sorte, é que uma mentira repetida muitas vezes, transforma-se em verdade, veja-se o caso do Sporting.

  

domingo, 9 de outubro de 2011

Nostalgias: Futebol Humano

Anos 80.
O cenário era um rectângulo de terra batida de balizas feitas com mochilas Palmares (ou Palmeres). O nosso campo de futebol, fronteiro ao portão principal da Escola Preparatória. Mesmo não havendo bola, a paixão inqualificável pelo golo continuava a satisfazer-se. No Futebol Humano havia espectáculo, golos e emoção com jogadas de fino recorte técnico. 

O jogo era uma espécie de coito interrompido, faltava a magia do remate na rapaqueca mas acabava por entreter os putos durante as horas livres e atá propiciava a comunhão entre os sexos pois as equipas podiam ser mistas o que, no dealbar da sexualidade, levava o jogo para uma dimensão diferente. 

As regras eram simples, não havia número limite de jogadores e ganhava a equipa que marcasse maior numero de golos que é como quem diz, quem conseguisse atravessar a linha de baliza da equipa contrária sem ser tocado por um adversário o que, a acontecer, obrigaria este a ficar retido no meio campo adversário até ser salvo (tocado) por um companheiro de equipa ou em caso de golo.

Não sei como é que ainda ninguém pensou em criar uma federação de futebol humano, com campeonato, taça e direito a ser reconhecido como desporto olímpico. Já imaginaram o que seria um Benfica vs FC Porto ou um  Sporting vs Benfica neste desporto? Só o facto de se chamar Futebol despertaria paixões e o contacto físico seria levado ao seu expoente máximo a despeito de impedir o golo adversário. 

Futebol Humano... ah e pensar que já tive 10 anos.






segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Treinadores de Café

- Chegou o Outono ao Futebol.
- É por isso que na Liga andam todos tão aconchegadinhos.
- Nada mau, nada mau. No ano passado ainda a procissão ia no adro e já lá ia o andor.
- A andar começa o Sporting.
- Pois é, quem diria. Depois de tanto tropeção houve quem pensasse em levar o leão às urgências para curar os traumatismos.
- Foram 3 seguidas.
- ...?
- As vitórias do Sporting.
- Ah.
- É obra. Nos Tempos que correm, para os homens do Campo Grande é um feito.
- Por falar em feito. O Benfica lá ganhou no Dragão.
- Empatou.
- Pois. Foi o que eu disse, isto é, Jesus.
- Traumas do passado.
- Saudades do futuro, lá diz o outro.
- A propósito de traumas. Ouviu o Fucile?
- Escutem-no.
- Aquilo foi tudo azia?
- É do cálcio. Deve ter bebido muito em criança.
- Pois é, quando em excesso, dá dores.
- O que lá vai, lá vai. Até foi um clássico calmo.
- Quando a esmola é muita... é preciso é cuidado com esta malta da bola. Há no Inferno gente mais bem intencionada.
- A gente vai falando.
- Vai, vai.


domingo, 25 de setembro de 2011

Futebol de mesa (a pré-história das consolas)

Algures no século passado, na pré-história dos PC e das consolas, a sala lá de casa foi palco para os encontros mais importantes da história do futebol. Sobre o relvado, um rectângulo de cartão, desdobrável, pontificavam 22 figuras monocromáticas e uma bola de disco de cor branca. Os vermelhos enfrentavam, invariavelmente, os azuis, fossem quais fossem as equipas em disputa. Aos Domingos, depois de almoço, retirava a caixa de cartão do armário, montava o campo, dobrado em três, montava as balizas (do género das que servem para decorar os bolos de aniversário), dispunha as equipas sobre o campo, de acordo com a táctica que me ocorresse e simulava a jornada do dia enquanto escutava o relato no  transístor; JVC, com leitor de cassetes. A coisa demorava 90 minutos; ou mais, se fosse dia de taça com prolongamento; tantos quanto a vida real dos pontapés na bola  e até dava direito a relato, gravado nas velhas cassetes BASF, de 120 minutos, onde o pai guardava algumas das memórias do ultramar.  Lembro-me das jogadas de mestre e dos golos de bandeira, de fazer corar de vergonha qualquer Barcelonazinho. Lembro-me das noites europeias, das finais, das glórias e dos insucessos. Lembro-me da ansiedade começar de véspera (eu tinha o jogo ali à mão, pronto para satisfazer a minha gula, mas eu resistia à tentação, esperando pelo dia marcado pelo calendário da vida real e da minha personificação paralela) e de acordar cedo no dia D... 
Guardei o jogo até à  bem pouco tempo, tendo perdido o seu rasto numa das várias mudanças de casa. Como a um amigo distante, gostava de o reencontrar numa sala qualquer, pisado por 22 figuras de plástico, disputando, quem sabe, a final do Mundial de  futebol enquanto eu bebia um uísque e lutava contra um impulso maior de não me entregar ao jogo com o pudor próprio de um cota e chefe de família.  Mas lá que dá ganas dá...
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